sexta-feira, 13 de maio de 2016

JOÃO


A daninha corta cerce por entre nós; passa por cima das leis da natureza e arranca da vida quem da vida viveu metade.

Não devia ser assim. Não devia!

É o marido que perdemos,
O pai que nos é tirado,
O filho que nos é arrancado.

Domingo foi o João, filho do meu primo Zé Luís, genro do meu primo Rafael. Foi sepultado ontem. Nós ficámos a chorá-lo.

Que Deus o acarinhe e ampare toda a família.

sexta-feira, 29 de abril de 2016

MÁSCARA IBÉRICA

Para que aqueles que estão perto de Lisboa possam agendar com alguma antecedência, aqui fica a informação.
Quem nunca assistiu, acredite que vale a pena. Eu marcarei presença!




Pode ver mais aquiaqui e aqui.

segunda-feira, 25 de abril de 2016

ABRIL

Vieira da Silva viu assim o dia. Talvez os condenados ao exílio tivessem o olhar mais atento.
Bendita madrugada!

sexta-feira, 15 de abril de 2016

O PÃO NOSSO DE CADA DIA

ii - o caldo e as sopas

Nós não temos sopa, temos caldo, palavra de pergaminhos porque filha legítima do latim caldus; palavra fidalga que deveríamos preferir à burguesa sopa que nos entrou portas adentro quando, por cá, se decidiu que era muito chic entremear galicismos nas frases (tal como agora é muito stylish misturar anglicismos de origem americana).
Se não temos sopa, temos sopas, que é palavra bárbara de origem germânica (suppa), provavelmente trazida pelos visigodos ou pelos suevos, à qual preservamos o sentido original: bocados de pão que se deitam em líquidos. A palavra tem singular, mas porque ninguém se sustenta atirando um único pedaço de pão para dentro da malga, usamos o termo sempre no plural. É assim que, com toda a propriedade, comemos as sopas de leite, as sopas de café, as sopas de cacau, ou as sopas de vinho. Às vezes dizemos ao contrário: leite com sopas, café com sopas, etc. Quem se não lembra daquela história, passada com um conterrâneo nosso que, chegando a um café da cidade grande, pediu: “o meu traga-mo com sopas!
As sopas de leite comíamo-las poucas vezes, porque as vacas mirandesas – aquelas que tínhamos e nos serviam – não são leiteiras e o seu úbere era mamado pelos vitelos.
As sopas de café eram servidas de manhã cedo, ao mata-bicho, em malgas de tamanho proporcional ao esforço de ter de arrancar da terra o sustento da família.
As sopas de cacau marcavam presença nos dias importantes da matança, ou da malha, forma de a família agradecer o trabalho de quem a vinha ajudar, proporcionando-lhe mimos de mesa fidalga.
As sopas de vinho, embora houvesse quem as preferisse às de café, eram pouco chamadas à nossa mesa, e comidas só pelos homens. Também elas eram disponibilizadas nas segadas, na malha ou na matança a quem as quisesse.
Mas as sopas, sem outro nome à frente, eram aquelas fatias de pão, quase transparentes, que a dona da casa cortava para a malga e sobre as quais derramava água fervida e temperada com duas areias de sal e um fio de azeite. Como descrever o perfume que se soltava dessas malgas em que pontuava o agre ligeiro do centeio e a macieza do azeite puro diluídos na água cálida? Como descrever os círculos da cor do ouro que dançavam à superfície, ora unindo-se uns aos outros, ora dividindo-se à medida que a colher mergulhava na tigela? Como descrever a beleza cromática dos tons escuros da côdea que se vão misturando com os tons mais claros do miolo? E como descrever a satisfação dos sentidos ao saborear tudo isso?

Havia, ainda, a variante das sopas trigas, porque feitas de pão de trigo, e das sopas com ovo quando, para dentro da água em ebulição, era aberto um ovo que se mexia para se desfazer em fios de gema e de clara. Era prazer em estado puro, ou serão as saudades da infância a sobreporem-se à verdade?   

O caldo (e era esse o tema único do artigo quando pensei escrevê-lo), para nós, é só um: o de couves – e couve galega! É verdade que comemos outros, mas dizemos que é de arroz, de massa, de feijão, etc.
O caldo exige mestria feita de muito amor, paciência e treino. Todos os dias, a mulher colhe as couves, olha-as de um lado e do outro, retira o pedacinho da folha onde esteja um bicharoco, ou marcas dele, sacode uma por uma e, depois, com cuidado para as não ferir, enrola apertadamente umas nas outras, até obter um manhuço perfeito e dimensionado ao tamanho da sua mão aberta, mas que arrocha em garra. Depois, corta os trochos (que servirão para as galinhas) e apara as pontas rebeldes. Só então estica o avental, ou puxa um alguidar, e começa a segar o caldo, com a mão esquerda encostada ao peito, que lhe serve de amparo, enquanto a direita empunha a navalha bem aguçada. Para ser o nosso caldo, as couves têm que ser cortadas em fios quase tão finos como cabelos. Se forem mais grossas já não servem e a mãe, que ensina a filha, repreende-a se fizer de outro modo: “olha que isso não é para os perus!”
A navalha não passa rente à mão; a navalha pressiona a mão, empurrando-a para baixo, de modo a que o corte seja exactamente da espessura requerida. À medida que vai sendo preciso, com a mão direita fazem-se subir as couves e, nesses momentos, aproveita-se para reajustar o manhuço e retocar de novo as pontas rebeldes. Terminado o primeiro corte, elas voltarão a ser talhadas, desta vez para que os fios fiquem menos compridos, facilitando a degustação. Só então se mergulham na água, pelo menos duas vezes. Nessa altura, já as batatas estarão cozidas e prontas a serem esmagadas com o garfo – também elas, uma a uma. Depois disso metem-se a couves, verifica-se o sal e tempera-se com uma bela colherada de unto.
Dá-se tempo para que as couves dêem uma volta na panela, ou no pote, e não mais que isso, para que o caldo não fique velho. Frequentemente é preciso acrescentá-lo, que é o mesmo que dizer, adicionar um copo de água para o tornar menos espesso. No fim da refeição, é lançado directamente da panela (ou do pote) para a malga e comido com colher. A minha mãe, contudo, comia o caldo sempre com garfo. O meu pai gostava de esforgalhar sobre ele algum miolo de pão, para o comer migado.

Hoje já não temos unto, mas o caldo de couves só me sabe bem em Rebordaínhos.
_________________ 
Veio-me isto à lembrança por causa da seguinte passagem de Camilo:
Uma grande parte do clero que pastoreia as almas, pode bem ser que me não aceite a verosimilhança deste caldo de couves. Espero que desçam da sua incredulidade, se eu lhes disser que a côngrua e pé-de-altar de S. Julião da Serra não davam para chá, naqueles tempos em que os direitos da xaropada chinesa eram enormes, e os paladares genuinamente portugueses, lá daquelas serranias, se saboreavam de preferência no salutar cozimento de couves adubadas de saboroso unto. Ora eu, que nesta fidalga e francesa Lisboa tenho sido espectáculo de riso, pedindo nos hotéis e recomendando aos meus amigos, o caldo verde, dando à estampa neste lugar e para meu duradouro opróbrio, o panegírico do caldo verde, caldo de meus avós, e do padre João, e de sua irmã.
In Camilo Castelo Branco, O Bem e o Mal

domingo, 3 de abril de 2016

Caminhada Pedestre

No passado dia 2 de abril, realizou-se mais uma caminhada na nossa aldeia.
São caminhadas organizadas pela Câmara de Bragança, o dia amanheceu cinzento mas agradável para o passeio, e por volta das 9h40 teve início a caminhada no Largo do Prado, passando pelos Pereiros, Pombares, Teixedo e terminou com um almoço oferecido pela Junta de Freguesia de Rebordainhos.











quarta-feira, 23 de março de 2016

Santa Páscoa


A todos, os meus votos de uma Santa Páscoa

segunda-feira, 29 de fevereiro de 2016

Francisco António Ochôa

Este artigo pretende dar a conhecer uma ilustre figura natural da freguesia de Rebordainhos, mais propriamente do lugar dos Pereiros. Estando esquecida e desassociada à sua terra natal julgo que é dever dar a conhecer um pouco do seu percurso, ainda que de uma forma sucinta.

Francisco António Ochôa (1839-1912), nasceu nos Pereiros a 04.03.1839, filho do Padre Alexandre José Ochôa (1806-?), natural do mesmo lugar dos Pereiros e de Balbina Ermelinda Romariz.

Apesar de presbítero, o seu pai foi professor de instrução primária na escola de Rebordainhos, tendo pedido aposentação em 18641 após “vinte anos de serviço”. A confirmação régia da legitimação por seu pai aconteceu em 12.06.1855 .

Frequentou o curso de Direito na Universidade de Coimbra entre 1864 e 1869 obtendo o grau de bacharel em Direito. No início da sua carreira começou por exercer advocacia, estando durante nove anos nas comarcas de Macedo de Cavaleiros, Vinhais e Bragança. Nesta altura filiou-se no partido regenerador, tendo sido vereador e administrador do concelho de Bragança. Seguiu a carreira de magistratura, tendo sido nomeado juiz de direito da comarca de Bicholim (Índia Portuguesa) a 03.02.1879. Regressado ao continente foi nomeado juiz da comarca de Vinhais a 16.12.1887 . A 16.09.1888, foi promovido à 2.ª Instância tomando posse como juiz da Relação de Nova Goa, onde permaneceu até 23.08.1897.

Em Goa, acabou por fazer parte do 29º e 30º Conselho de Governo do Estado da Índia nos anos de 1894 e 1897 respetivamente.

Foi então agregado à Relação de Lisboa por decreto de 02.12.1897, passando a juiz efectivo por decreto de 12.06.1901. Ascendeu a presidente desta instituição por decreto de 8 de Março de 1910, tendo tomado posse a 12 de Março do mesmo ano como o seu 42º presidente. Ainda como magistrado, foi nomeado juiz conselheiro do Supremo Tribunal de Justiça por decreto de 24 de Agosto de 1910.

Republicano, foi eleito deputado à Assembleia Constituinte de 1911 pelo círculo eleitoral de Bragança após a revolução republicana de 5 de Outubro do ano anterior. Findos os trabalhos desta assembleia que culminaram na constituição Portuguesa de 1911, tomou posse como senador da Republica Portuguesa, tendo presidido interinamente à primeira sessão deste órgão.

Faleceu na cidade de Lisboa com 73 anos no dia 22.12.1912.

Link para o artigo completo: http://freixedelo.com/repository/francisco_antonio_ochoa.pdf

domingo, 28 de fevereiro de 2016

PARTILHAR

Os que vivem na alegria da presença têm-se esquecido da tristeza dos desterrados. Tive que "roubar" para poder partilhar e mitigar as saudades dos ausentes como eu. 

Paisagens de Rebordaínhos e dos Pereiros.

quinta-feira, 18 de fevereiro de 2016

DAR

por
ANTÓNIO AUGUSTO FERNANDES


Naquele tempo, no tempo em que o destino deu connosco em Rebordainhos, a tia Lídia, que tinha a quarta classe (das primeiras alunas que o Sr. Professor Francisco Ribom levou a exame em Rebordainhos) fazia de enfermeira porque … sabia dar injecções. Como ainda não tinha chegado o tempo do desperdício e das seringas descartáveis, a mecânica da injecção tinha o seu quê de complicado. A seringa (de vidro) e a agulha (porque tanto uma como a outra tinham que durar muito tempo) eram ambas transportadas numa caixinha inox com um pequeno cavalete metálico. Na altura do seu uso, voltava-se a tampa do avesso e servia de reservatório onde se deitava um pouco de álcool e se colocava o cavalete. Sobre este punha-se o resto da caixa com a seringa e a agulha mergulhadas em água. Incendiava-se o álcool que ardia até a água ferver e assim se esterilizava o material.

Ora um dia, pelos começos do Verão, aparece lá em casa um homenzinho cabisbaixo, torcendo nas mãos nervosas o chapéu velho, muito apoquentado: ─ “Se a Sr.ª Lídia lhe podia fazer um grande favor, que a mulher estava muito malzinho… O Doutor tinha-lhe receitado meia dúzia de injecções… mas quem lhas havia de dar?!”

A minha mãe, coitada, que era (quase) uma santa, lá lhe disse que sim, pois o que é que lhe havia de dizer?. Só que o homem era dos Vales, e de Rebordainhos aos Vales ainda é um estirão de respeito pelos velhos caminhos traçados para os carros de bois. No dia seguinte, lá nos metemos a caminho. E digo ‘nos metemos’, porque, como já não havia aulas, eu fora destacado para acompanhante na empresa sanitária. Até à Ribeira a coisa ainda ia: era caminho sobejamente conhecido, pois que para ali ficavam os lameiros para onde arranchava com os meus primos do Outeiro atrás das vacas, e era um regalo para os olhos aquele manto verde dos lameiros pelo vale acima por onde coleava o renque de freixos acompanhando a ribeira que nascia logo ali acima, no Pórto. Depois é que era o dianho: o calor começava a apertar e aquela subida, rasgada em diagonal nos costados áridos do Ladeirão , nunca mais acabava. Para quem não sabe ou não se lembra, os Vales eram um cu de Judas de meia dúzia de casotas encravadas numa prega a caminho dos cumes da serra, por onde não se ia para lado nenhum. O carreiro e o mundo acabavam ali.

Lá chegados, aquilo era um silêncio de cemitério. Quer dizer, não era bem, porque dois ou três miúdos brincavam espolhinhados no chão, no meio das galinhas que esgaravatavam a leiva, mas uns e outras num silêncio de convento cartuxo. Minha mãe chamou-os para que lhe indicassem a casa da tia Maria doente. Levantaram o nariz do chão e, mais selvagens que botocudos e mais lestos que perdigotos, evaporam-se em segundos, em absoluto mimetismo com a terra e os ramos dos sequeiros em torno.

Lá teve a enfermeira que gritar o nome da enferma até que, de um janelo rasgado na pedra nua, surdiu a cabeça desgrenhada da própria: ─ Estou aqui, Sr.ª Lídia!
Esperei sentado ao fundo da escaleira, esmagado por tanta quietude e tamanha solidão, olhando os montes ermos e quedos, a fraga grande da Ladeira ao longe, de sentinela à aldeia e adivinhando os três pares de olhos assombrados a espreitarem entre os ramos do sequeiro. Rebordainhos não era propriamente a capital, mas ao pé daquilo, bem fazia de metrópole.

As viagens ainda se prolongaram por uma semana, mas como a tia Maria dos Santos disponibilizou a sua burrica como meio de transporte para a enfermeira, fiquei dispensado da tarefa de acompanhante; por isso essa primeira impressão que tive dos Vales foi também a última e tão funda me ficou que me definiu a convicção de que não estava mesmo talhado para cenobita.

Passaram-se umas semanas e, um dia, quando me entretinha naquela varanda dos tempos da minha avó Adriana, uma mulherzinha pálida e magra, com o lenço pela cabeça sombreando-lhe ainda mais as olheiras fundas, subiu as escadas com uma cesta de vime enfiada no braço. Minha mãe acudiu da cozinha.

─ Ó Senhora Lídia, eu vinha-lhe agradecer a trabalheira que teve comigo. ─ E, isto dizendo, ia destapando a cesta e de dentro sacou pelas orelhas um coelho taludo, bem mais gordo que a dona, coitada.
─ Ó rapariga, guarda lá isso. Olha, leva-o e trata de ti, a ver se ganhas forças, que tu inda andas bem fraquinha.

A moça baixou os olhos embaraçada, acerejaram-se-lhe as faces pálidas, tremeu-lhe o beiço e futurei que se ia pôr a chorar:

─ Eu bem sei que é pouco… mas eu não tenho paga para o que fez por mim. E num arranco suspirado: ─ Ai! Era um favor quer me fazia se… ─ e desatou num choro manso com as lágrimas borbulhando, grandes e mudas.
E minha mãe, já a pontos de chorar também:
─ Está bem, Maria, está bem. Pronto. Deixa lá ver o bicho.

Bem, talvez não fossem santas as pessoas da nossa terra na nossa infância, mas tiravam bem as medidas ao sentido do serviço e da gratidão.

quinta-feira, 11 de fevereiro de 2016

INTERLÚDIO QUARESMAL


Este disco e este filme fizeram parte das nossas vidas - e tenho a certeza de que todos guardamos boas recordações dele(s).Creio que se coadunam com o tempo quaresmal que vivemos, por isso os partilho convosco.


O filme está legendado em Português do Brasil. Aqui e ali, surgem erros gramaticais de palmatória. Tende paciência, porque não arranjei melhor.

segunda-feira, 8 de fevereiro de 2016

O PÃO NOSSO DE CADA DIA

Inicio, com este artigo, uma série dedicada à alimentação, distinguindo entre os dias de festa e os dias de sempre. O calendário decidiu por qual começar. 


DIAS DE FESTA

1 - O ENTRUDO

(imagem retirada daqui)

Talvez fosse no Entrudo que se iniciasse a desinça do fumeiro, já curado e amanhado em carrelos embarrados num prego espetado no terceiro ou em qualquer parede da cozinha. Da salgadeira saía a orelha e a queixada do porco que eram cozidas com chouriças de boche e das outras, tudo a servir de acompanhamento a umas casulas macias. Os potes ficavam à roda do lume durante toda a manhã e as mulheres da casa iam-nos virando para que a cozedura fosse uniforme. Quando a fervura se levantava, os testos eram ligeiramente afastados e o interior da casa era inundado do perfume quente e salgado das coisas boas.
As casulas não integravam os hábitos alimentares de todas as famílias. Nessas casas, o feijão era substituído por arroz de qualquer coisa, normalmente de espigos, mas os enchidos, cozidos ou assados, lá estavam a servir de acompanhamento: chouriças e salpicão da língua.
Quem nunca conviveu com a privação não compreende o Entrudo e desgosta-se da festa. Nós, que percorremos uma infância de constantes vacas magras, sabemos, contudo, dar-lhe sentido e apreciar-lhe o sabor.
____
Nota: para este artigo inspirei-me noutro que a minha irmã Augusta escreveu há já bastante tempo (ver aqui). Para poder prosseguir com este assunto preciso de ajuda, por isso, agradeço que, à medida que se forem lembrando, me vão dizendo. Não é preciso nenhum tratado, basta que me digam: não te esqueças disto ou daquilo.

sábado, 30 de janeiro de 2016

PARABÉNS

Hoje são dois os motivos que me trazem aqui.

1º - ANDRÉ PIRES


O André, filho do Casimiro e da Maria, recebeu no passado dia 28 de janeiro o seu diploma de MELHOR aluno do curso de Contabilidade.
A entrega aconteceu na cerimónia de comemoração do Dia do Instituto Politécnico de Bragança.
PARABÉNS ANDRÉ. 

2º  PRESÉPIO 


Este ano, o nosso presépio da igreja recebeu uma MENÇÃO HONROSA no concurso de presépios levado a cabo pela Câmara Municipal de Bragança.
PARABÉNS MORDOMOS.

É com muito orgulho que sou a mensageira destas excelentes notícias. 

terça-feira, 26 de janeiro de 2016

ROSTOS

Tenho esta fotografia guardada...Vamos lá ver se identificamos bem toda a gente.


1 - Tia Zulmira Pereira
2 - Tia Francisca Pires
3 - 
4 - Tio Pereira [filho da tia Francisca e do tio Pereira]
5 - Tio Pereira [pai]
Lugar: Fonte Grande

sexta-feira, 22 de janeiro de 2016

AS NOSSAS PALAVRAS

(imagem retirada daqui)

AS REFEIÇÕES E O SEU TEMPO

Creio que  a saída de muitos jovens para estudarem fora da terra terá sido a causa principal da substituição de muitas palavras nossas por outras de outros meios. Neste momento refiro-me às refeições e, para que não achem que as designações que usávamos eram transmontanices, presenteio-vos com uma passagem de Camilo:

   A jantar?  – observou Gregório  – são sete horas da tarde. Vossa excelência queria dizer «cear», não é assim? Vamos lá cear, e jantaremos em minha casa em Lisboa, de hoje a duas semanas; mas lá janta-se ao meio-dia, merenda-se às quatro; e ceia-se às oito.
camilo castelo branco, Coisas Espantosas


Assim éramos nós, embora com horários um pouco mais variáveis, sobretudo o da ceia.

Ao levantar da cama tomava-se o mata-bicho;
A meio da manhã comia-se o almoço;
Ao meio-dia punha-se o jantar na mesa;
A merenda era a refeição do meio da tarde;
O dia de trabalho encerrava-se com a ceia.

Às vezes, lá calhava, merendava-se a qualquer hora do dia, mas isso eram refeições de outro alimento...

sexta-feira, 15 de janeiro de 2016

O COELHO CHINO

POR: 
ORLANDO DOS SANTOS MARTINS    
  
Olímpia da Natividade Afonso & Adriano Santos Martins

Não se via vivalma na rua.
O dia amanhecera gélido, e um leve nevoeiro pardacento vindo da serra pairava sobre o manto de neve que se abatera há já alguns dias.
A pureza da paisagem era centralmente manchada pelo vulto mais brilhante do dorso do muro que delimitava o prado das hortas repletas de montículos de neve que escondiam algumas couves, nabos e grelos e mais longe, quebrando a branca monotonia, os gravetos enregelados das árvores nuas e o recorte das montanhas.

Junto ao muro lá vinham, arrastando os socos, dois pinguins encasacados e muito ciosos no caminho a seguir, deixando as suas pegadas frescas na neve.
Eram o Tio Manuel Frade o “Caranvas” e o Adriano “Torto” com os seus dois cãezinhos, mais de estimação que animais de caça.
Iam à caça da lebre e do coelho, lá para os lados da Ribeira, cada um com a caçadeira de dois canos ao ombro, aberta para segurança, e um cinto repleto de cartuchos preparados à lareira no dia anterior. Naquela idade, bastante avançada para ambos, já pouco caçavam e não era raro a Olímpia “Maneta” temer que um dia ficassem por lá os dois enregelados.

Já a tarde lançara alguma penumbra na aldeia quando as duas figuras faziam o seu caminho de regresso, tão leves quanto tinham partido, sem qualquer troféu, tinha sido o habitual fiasco.

- Carajo Manel, aquela lebre foi por um triz…
- Eu penso que ainda acertei num coelhito, mas deve ter sido de raspão pois nem os cães deram com ele.
- A neve está dura sabes, e eles fogem…

O tio Adriano “Torto” chegado a casa, ensopado e enregelado, sentou-se em frente ao lume mortiço e, atiçando uns paus no trasfogueiro, começou a matutar, coçou a careca e notou a ausência da patroa.
- É agora, tenho que arranjar um coelho prá Olímpia, e amanhã convido o Manel pró petisco. – juntos na caça, juntos nos troféus -.

Tal como o pensou, assim o realizou: dirigiu-se ao galinheiro de arma em punho, onde havia alguns coelhos e galinhas que coabitavam em cubículos separados e escolheu um coelho branco com manchas negras no focinho e no lombo, a quem a Olímpia chamava  “chino”. Não esteve para demoras e, gastando apenas um cartucho, “Pum!…” resolveu o insucesso do dia.

Levantou o seu troféu de caça que colocou na mesa larga da cozinha, bem visível a qualquer um, aguardando satisfeito o regresso da patroa.

- Olha Olímpia, e dizes tu que não caço nada, quero que trates deste coelhito prá manhã, fá-lo com arroz e convida o Manel.

- Estafermo dum caralho, este é o meu chino, foste-me ao galinheiro, maldito!… Quem merecia um tiro eras tu…

Entre palavrões e injúrias lá foi a Olímpia passando o resto da tarde sem se calar, resmungando e amaldiçoando a sorte e a ideia do marido.
- Ora, Olímpia, já que está morto, temos de o comer carai.

Esta é uma das poucas histórias que recordo do meu avô “Torto” e da minha avó “Maneta”.
                        


domingo, 10 de janeiro de 2016

LENGALENGA



Tiroliro-liro
Meu pai matou um grilo
P’rà festa do Rodrigo
Todo o bicho convidou
Só a mosca deixou
E o piolho com a risa
Esfourou-se na camisa
Assubiu-se a ũa janela
A tocar na caravela
Caiu de lá abaixo
E partiu ũa costela


Esta foi-me contada pela tia Delfina, que se ria a bom rir enquanto imaginava a costela partida do piolho: "ora vede lá, a costela de um piolho, que taluda seria!"

Bem-haja tia Delfina!
_____
A imagem é de uma série de desenhos animados, intitulada "The Animals of Farthing Wood"

e foi retirada daqui.

quinta-feira, 7 de janeiro de 2016

É PELAS MÃOS DOS OUTROS...


           ... que expresso os meus desejos:

Almada Negreiros
                                  
                                  Deseja-lhe o pensamento para quem desejar é pensar
                                  e que leia como se fecha o livro
                                  com a luz na mão
                                  e sem chegar ao fim.
Maria Gabriela Llansol, Um Beijo Dado Mais Tarde

domingo, 3 de janeiro de 2016

TEMPO INCOMUM


Foi assim que achei Rebordaínhos: com pascoelas floridas no horto de casa!


Nem uma geadinha para matar  saudades da brancura;
- candeolos muito menos -;
Nem o frio que atrecesse e trouxesse o desejo de melhor agasalho;
Nem o cheiro a água sólida soprado pelo vento do Norte;
Nem a neve.
Que falta senti da Neve!

Só o nevoeiro,
aquela névoa espessa que, nas memórias da infância, 
se quedava pelas terras baixas, 
mas agora trepa aos cimos
E obstrui o céu estrelado.

Estive na nossa terra, mas nem parecia ela.
Persiste a saudade.



Para todos, o meu desejo de feliz Ano Novo.

segunda-feira, 21 de dezembro de 2015

ESTE NATAL

Caravaggio: Repouso durante a fuga para o Egipto

Numa história antiga, de cerca de dois mil anos, um certo rei malvado mandou matar todas as crianças para que uma delas, anunciada como rei, lhe não roubasse o trono. Para salvarem o filho, os pais dessa criança, virando costas ao medo, fugiram para o Egipto que se tornou, para eles, terra de refúgio. É verdade: Jesus começou a vida como refugiado, mas pôde sobreviver porque uma terra estranha o acolheu, impedindo a vitória de quem semeava o terror para garantir o poder.
São histórias de ontem que se cruzam com histórias de hoje, sendo ambas eternas porque simbolizam a luta do bem contra o mal. As pessoas que hoje nos pedem que as acolhamos fogem do mal e é nosso dever dar-lhes guarida, provando que não cedemos ao medo, mesmo que sejamos alvo de ataques vis.

Que este Natal, tal como o primeiro, sirva para nos lembrarmos que a dignidade é intrínseca a cada ser humano e que cada um de nós nasceu para ser livre e feliz. Sejamo-lo, pois, e festejemos.

Boas-festas

quinta-feira, 10 de dezembro de 2015

NO CATRAPEIRO

Por: ANTÓNIO AUGUSTO FERNANDES


Naquele tempo… quando o destino nos depositou em Rebordainhos, aí por volta de 1950, meu pai vinha animado de um fervor de noviço no que a terras dizia respeito. Ele desbravou, ele surribou, ele plantou, ele fez trinta por uma linha. São dessa altura as maçãeras que, ainda hoje, bordejam as duas terras de Vale-da-frunha. Na hortinha da Vale-da-frunha d’além, conchinha de terra com um poçaco voltada a sul, plantou ele, com toda a devoção, uma figueira cujos figos nunca chegaram a amadurecer e uma videira cujos bagos chegavam ao Outono ainda rijos como zagalotes. Ingratas essas terras da serra! Mas sempre me deu a impressão de que, além dessa hortinha, ele nutria um especial afecto pelo Catrapeiro. De vez em quando desafiava-me: ─ vamos até ao Catrapeiro? E lá íamos até ao Catrapeiro, em divagação vadia, mais ou menos porque sim.

Este nome de Catrapeiro quer-me parecer que deve provir de catapereiro que, além de ser nome de vinho ribatejano, significa pereiro bravo. De pereiros não tenho notícia. Mas recordo ainda uma macieira brava que por lá havia, entre a terra de batatal e o lameiro.

Pois o Catrapeiro era mesmo isso: um corregozito que na parte de baixo andava de lameiro e, na de cima, dava batatas quando Deus era servido, umas batatas deliciosas, obedecendo à filosofia de ─ boa batata, terra granita, água granita e caganita. Também eu gostava do Catrapeiro, mas era por causa de uma pocita que lá havia para rega das batatas. Todo o meu regalo, quando a poça estava vazia, era esse milagre da água a borbulhar do chão, levantando areiazinhas, num fervedouro sem fim. Com a mão, rapava um pouco de saibro sobre o olho da nascente de maneira a fazer uma conchinha. Esperava que a água aclarasse e depois mergulhava nela o focinho para sentir nos beiços o beijo da mãe terra. Água fria que a veia trazia da Ladeira, em cujo cimo pontificava a Fraga Grande.

E foi no Catrapeiro que, por duas vezes, eu senti a vida a fazer-me agulhas para outro lado:

Era Agosto e já tínhamos ido a Bragança para o exame da quarta. Eu andava por ali com a Amélia, que era uma espécie de nossa irmã mais velha, a guardar os bois no lameiro. E não andava lá muito contente. O conselho familiar tinha resolvido que eu iria para o seminário. E, de repente, impôs-se-me esta evidência assustadora: eu já não pertencia àquilo. O Catrapeiro já não era meu, ia perdê-lo definitivamente dentro de dias. Sentado na fraga que havia ao fundo do lameiro (e que ainda deve lá estar, que as fragas são eternas) e olhando o negrilho tutelar (que a malina levou, que os negrilhos não são eternos) pasmava para aquilo tudo com uma sensação de estranheza e de angústia que me sufocava. Do lado de lá da Ribeira, no Ladeirão, uma camarada de segadores cantava uma toada lenta e desesperada, ressumando uma angústia como a que apertava a garganta. E de súbito, sem querer, as lágrimas começaram a borbulhar-me dos olhos, sem querer, como da nascentinha borbulhava a água da poça. E a canção dos ceifeiros, dolente na tarde calma, soava-me como a entoação atroz de um adeus definitivo. Ainda bem que a Amélia fazia meia, sentada à sombra da macieira brava e não deu por nada.

Uns dez anos mais tarde, mais ou menos pela mesma altura do ano:

Meu pai, que continuava embeiçado pelo Catrapeiro, guardou as batatas regadas pela pocinha dos meus enlevos, para encerrar a colheita. Comprou uma caixa de sardinhas e levou um caldeiro como tralha de campanha. À hora do meio dia, com um braçado de tanganhos, que nisso as terras sáfaras da Ladeira eram pródigas, acendeu-se fogueira cabonde a assar um chibo. No caldeiro cozeu-se uma abada das batatas acabadas de arrancar e sobre as brasas sobrantes puseram-se as sardinhas a rechinar, gordas como lontras. Eu convalescia de uma febre tifóide que, com a mania de mergulhar os beiços em tudo quanto era fonte, apanhara com umas águas inquinadas para os lados de Arouca. Depois de seis dias de cama, andava escanzelado como cavalo tropiqueiro de cigano, muito enjoadiço, sem apetite, debiqueiro como donzela fidalga. Pois, meus senhores, ali, junto da pocinha da minha eleição, sentado como um príncipe sobre um monte de rama da batateira, com aquelas batatinhas farinhotas a esfarelarem-se como flocos de algodão, ali imolei dez sardinhas como se fossem a mais delicada dieta de convalescente para um entanguido das maleitas.

Um mês depois iniciava, em terras alentejanas de Vendas Novas, a minha longa jornada no ofício da ensinança de que há dez anos me reformei.

Fotografia retirada daqui

quinta-feira, 26 de novembro de 2015

O JOGO DO TEMPO


adivinhas

Quem trás d’onte foi ao monte
E onte no monte ficou,
Onde estava trás d’ontonte
Quem no monte se deitou?

E se hoje lá pernoitar
E amanhã também ainda
Passado manhã dirá
Que não deu a ida pela vinda?
_________
Imagem daqui

sábado, 21 de novembro de 2015

"UN JOUR AU MAUVAIS ENDROIT"

A canção abaixo foi escrita a propósito da barbárie de dois linchamentos em Grenoble: Kevin e Sofiane, dois jovens, foram esfaqueados por outros vinte. Corria o ano de 2012. Impressionou-me profundamente a descrição dos acontecimentos feita pela mãe de Kevin: "Ils ont tué comme si c'était un jeu, un jeu collectif, un jeu pervers, où les frontières du réel et du virtuel se confondent, comme s'ils se trouvaient dans un jeu vidéo où l'on peut 'rejouer', ou dans un film que l'on peut rembobiner" (daqui). Na nossa língua: "mataram como se se tratasse de um jogo, um jogo de grupo, um jogo perverso, no qual se confundem as fronteiras do real e do virtual, como se estivessem num jogo de vídeo que se pode repetir, ou num filme que se pode rebobinar". Foi assim que vi e revi as imagens dos atentados em Paris: aqueles criminosos parecia que estavam a "brincar" num jogo de vídeo.

Da canção, importa-me o título ("Un jour au mauvais endroit" - certo dia, no lugar errado) e, sobretudo, o refrão: "Plus jamais ça!" Nunca mais!



quarta-feira, 18 de novembro de 2015

MAR TRANSMONTANO

"Mar Transmontano" foi o título que a Augusta deu à mensagem que me mandou... para eu matar saudades, certamente, e bem lhe agradeço. A vista, que enleva, é a do cimo da Serra e traz consigo tantas sensações que o corpo se arrepia. Saciai-vos, pois, como eu me saciei.


sexta-feira, 30 de outubro de 2015

ECOS DO MEU SENTIR - XII

René Magritte, Le Modèle Rouge

DEFUNTO-VIVO 

por: FILINTO MARTINS        

            Aceite o desafio do Tonho, que na porta do seu quarto de “Lisboeta de passagem” afixou as suas boas-vindas: “Se bateres, bate devagar, senão bate com os cornos”. Português genuíno dum transmontano de cepa, mas como ele era culto dos escritos bíblicos, logo aparecia nova mensagem: “Senhor, livra-me dos cornos dos unicórnios”.
Convém lembrar que quem brinca com a memória arrisca-se a passar por saudosista, senão algo pior. Assim, para não ser insultado por algum incauto que como eu, apenas li umas cem páginas da tese de doutoramento “ A memória” do Prof. Custódio Rodrigues, quando a mesma tinha mais de 700 páginas, que eu deveria ter assimilado na Universidade, vou a uma gaveta da mesma citar Patrick Modiano (Prémio Nobel): “Na vida, o que conta não é o futuro, é o passado”.
            Não quero disfarçar as tristezas do presente com as ilusões do futuro – como fazem todos os nossos políticos sem excepção – vou tentar apimentar alguma lembrança que nos deixaram os nossos Rebordainhenses.
Se os Americanos falam da noite da abóbora, cuja tradição nasceu nas terras dos Celtas, meu pai, ao serão de Inverno, à lareira pois, ora descascando castanhas para os cevados (hoje os cevados são outros), rezando o terço, ora as “mulheres ganhando cabras” (depois queixam-se dos ossos) lá ia mais uma história para rir, que meu pai dizia ser verdadeira, porém a primeira vez que a ouvi fiquei sem respiração e não me lembro de ter rido.
 Assim começava meu pai: “… naqueles tempos não havia transportes, era à pata”, de vez em quando lá passava uma camioneta de carga, que até parava para dar uma boleia a algum desgraçado, que ia à chuva e ao vento. Um homem vinha para a aldeia, cansado, molhado, pois o sombreiro não era suficiente, quando ao longe surgiu o roncar duma camioneta de carga (se fosse o Nelzeira diria logo que era uma Scania Vabis), porém não adivinhou a boleia. Os transmontanos eram bons, ainda são e por isso o motorista parou ao lado do homem e disse-lhe:
- Suba, homem, vai todo molhado.
- Santo Deus, foi milagre, pois já vinha mesmo cansado. Agarrado à cabine para não cair, nem um quilómetro tinham andado, eis que olhou para a carga e reparou que na mesma iam duas urnas, que iriam servir para defuntos da aldeia, dado que na terra não havia stocks para tais luxos. De quando em vez o homem ia olhando para a estrada, porém sempre com um olho na carga.
A chuva continuava, mas não importava, não metia medo. Eis senão quando a tampa duma urna é levantada e uma mão aparece para ter a certeza que ainda chovia. A velocidade da camioneta podia agora ser elevada, porém mais rápido foi o salto da camioneta em andamento.
Chegados à aldeia o motorista admirou-se e perguntou ao “defunto-vivo”:
- Eu dei boleia a outro e só está aí você?
Talvez parte da carga já tivesse defunto certo. Qual abóbora, nem meia-abóbora. Os transmontanos têm “Halloween” que não foi importado dos “States”, pois os Celtas também andaram por estas terras.

domingo, 25 de outubro de 2015

SCENA DO ODIO

Hoje apetece-me Almada Negreiros. Porque sim.

                                                      (...)
O seculo-dos-Seculos virá um dia
e a burguezia será escravatura
se fôr capaz de sahir da cavalgadura!
Hei-de, entretanto, gastar a garganta
a insultar-te, ó bêsta!
hei-de morder-te a ponta do rabo
e pôr-te as mãos no chão, no seu lugar!
(…)
Ó burguezia! ó ideal com i pequeno!
Ó ideal ricócó dos Mendes e Possidonios!
Ó cofre d'indigentes
cuja personalidade é a moral de todos!
Ó geral, da mediocridade!
Ó claque ignobil do vulgar, protagonista do normal!
Ó catitismo das lindezas d'estalo!
Ahi! lucro facil,
cartilha-cabotina dos limitados, dos restringidos!
(…)
Ahi! Zero-barometro da Convicção!
bitola dos chega, dos basta, dos não quero mais!
Ahi! plebeismo aristoctatisado no preço do panamá!
erudição de calça de xadrez!
competencia de relogio d'oiro
e corrente com suores do Brazil,
e berloques de cornos de buffalo!
E eu vivo aqui desterrado e Job
da Vida-gemea d'Eu ser feliz!
E eu vivo aqui sepultado vivo
na Verdade de nunca ser Eu!
(…)
E vós tambem, ó toda a gente,
que todos tendes patrões!
E vós tambem, nojentos da politica
que exploraes eleitos o Patriotismo!
Maquereaux da Patria que vos pariu ingenuos
e vos amortalha infames!
 E vós tambem, pindericos jornalistas
que fazeis cócegas e outras coisas
à opinião publica!
(…)
Ah! que eu sinto, claramente, que nasci
de uma praga de ciumes!
Eu sou as sete pragas sobre o Nylo
e a alma dos Borgias a penar!
José de Almada Negreiros, 1915
______________

Tonho: o "Tareco" não me bastaria.

domingo, 18 de outubro de 2015

A VINGANÇA DO BACALHAU

POR: ANTÓNIO AUGUSTO FERNANDES


Vocês lembram-se do Sérgio, aquele tontinho que aparecia lá por Rebordainhos, quando as searas lourejavam e já se afiavam as seitouras? Lembram lá agora!

Coitado! Manso como a terra; nos olhos um luaceiro de bondade e de permanente pasmo perante as coisas, os bichos, as gentes… Sempre descalço, mas de chapéu, de fato abotoado, ou melhor, de fatos, dos fatos que lhe iam dando, normalmente de cotim, os dos pobres, já que são os pobres quem mais dá aos pobres, e, quando as circunstâncias o pediam, de gravata, muitas vezes directamente atada sobre as peles do pescoço, que nem sempre calhava trazer camisa. Ora aperreando-o, de muito apertados, o que era raro por ser miudito e enxuto de carnes, ora pingões, a sobrarem-lhe, dobrados nas mangas e enrolados nas canelas. Às vezes a caridade andava mais distraída e a ida ao algibebe atardava-se. Então as pernas das calças mingavam, ripadas das poeiras e lamas dos caminhos, e ficavam-se pelo meio das tíbias escanzeladas. Com tal físico e com o treino que se impusera, era um andarilheiro infatigável. Não parava quieto. Aparecia e desaparecia como um trasgo. Dizia-se que, nas suas deambulações, já tinha descido até ao Porto. Da sua mudez, nunca foi possível tirar a limpo tal informação. Mas é de crer que sim.

Era pobre, mas não pedia. Aceitava o que lhe davam com aquele olhar manso de cão perdido sem coleira. E o mais comum era vê-lo a refeiçoar sentado na soleira das portas, migando um carolo de centeio para dentro duma malga de caldo, o passadio mais corrente para os aldeanos nessa altura. Rapado o fundo da malga, entregava-a à dona de casa, mudo, como se as palavras o cansassem, erguendo para quem lhe matara a fome os olhos vagos inundados de gratidão. Nos tempos livres, que eram todos, percorria as ruas da aldeia recolhendo trapos e papéis velhos. Mas poucos, muito poucos. Poucos papéis, porque pouco se lia em Rebordainhos e os escassos jornais ─ do Sr. Padre, do Sr. Professor ─ eram reciclados para recortar e forrar os armários da louça. Poucos trapos, porque os trapos era para serem usados até ao fio e, quando já não tinham préstimo para cobrir o esqueleto, ainda se guardavam para tecer uma hipotética manta de trapos no tear da Antonieta ou da Perpétua. Hoje acredito que o pobre nenhum proveito tirava de tal recolha e o seu gesto assentava apenas em preocupações de higiene e limpeza. Tinha muito de ecológico avant la lettre, o Sérgio. Sim, o Sérgio era um visionário incompreendido. Se não, escutem.

Andasse lá por onde andasse, na festa de Santa Maria Madalena (em Julho, para quem ande de candeias às avessas com o calendário hagiográfico) era tido e achado em Rebordainhos. Mas era uma tragédia. Sendo a festa do orago, com convite feito a familiares e amigos das redondezas, era ocasião azada para imolar toda a casta de animaizinhos que pudessem ajudar à santa trincadeira. O que constituía uma aflição indizível para a alma sensível do Sérgio. Perturbado no seu amor por todo o ser vivente, descalço como sempre, arrimado ao seu bordão de caminheiro, deslaçava-se-lhe a voz, clamando em altos brados pelas ruas da aldeia, como os profetas bíblicos na Babilónia pecadora apelando à conversão dos perversos:
─ Não mata pitinha! não mata cordeirinho! não mata cabritinho!... ─ E estacava esbaforido, retomando o fôlego, com o ar alucinado dos profetas que pregam para orelhas moucas. E retomava:
─ Come pão, come couve, come batata!... Mas não mata cordeirinho!... Come nabo, come bacalhau, mas não mata cabritinho!...

Como se vê, além de ecologista avant la lettre, o Sérgio era também vegan avant la lettre, é claro, sem o saber. E se ele nomeava o bacalhau como iguaria possível na celebração festiva, era por apenas conhecer o gadídeo (como ensina o José Quitério) das mercearias, no seu aspecto de múmia triangular salgada, ignorando que, antes disso, ele fora também ser vivo e livre nos oceanos. A tanto não chegavam as suas informações no capítulo da zoologia.

Ora, a última vez que vi o Sérgio, era já eu estudantinho de terceiro ou quarto ano. Eu estava de férias e o Sérgio comparecia, com a regularidade habitual, para as celebrações da Santa Maria Madalena. Tinha havido a missa solene com solene sermonata, mais a procissão circunvagando a aldeia, aformosentada pela banda (de Pinela, suponho), tinha-se papado o lauto jantar festivo, iniciava-se a possível passeata pós-prandial, e quem havia de aparecer, espavorido, aos berros?... O Sérgio. O pobre já tinha corrido meio povo gritando esgazeado. O que fora, o que não fora. O desgraçado trazia uma espinha de bacalhau atravancada na garganta e não encontrava quem lhe acudisse. E, espavorido, de boca escancarada, apontando com dedo aflito as goelas, agarrava-se a mim como pessoa culta que até andava nos estudos, que lhe encontrasse salvatério para a aflição. E eu, quase tão aflito como ele, espequei, esparvoado! Até que alguém, ali ao lado, receitou: ─ Ó homem, bebe uma colher de azeite e engole uma côdea mal mastigada! Remédio santo! O Sérgio estava salvo.

Nunca mais o vi. Que Deus lhe fale à alma, que nela não havia o mais leve resquício de maldade.

Dir-me-ão que não, que é maluquice. Mas a mim ninguém me tira da ideia que aquilo foi maldição do bacalhau pela desconsideração em que o pobre do Sérgio incorrera ao não o incluir no seio dos seres viventes com direito a serem salvos da deglutição humana.

domingo, 4 de outubro de 2015

VELHOS

POR: ANTÓNIO AUGUSTO FERNANDES

(Pintura de Salvador Dali)

Hoje é dia de eleições. E nesta perplexidade de botar o voto em qualquer das incógnitas políticas que nos propõem o regresso do bacalhau a pataco, organizo uma viagem sentimental ao passado.

Quando, aí por volta de 1950, os Fados me depositaram em Rebordainhos, os que eram os velhos de então tinham nascido ainda no século XIX, antes da implantação da república, quando havia reis, rainhas e princesas para habitarem palácios de sonho e abastecerem de fantasia os contos populares. Esses são os meus velhos de referência, porque assim os encontrei com os meus olhos de miúdo e assim mos reteve a memória porque eles ainda por lá andavam quando os Fados de novo pegaram em mim e “me levaram pêra longes terras”. Assim me ficaram como protótipos do que é ser velho. E, velho eu agora também, é assim que os vejo: com as suas frases sentenciosas e lentas, os seus silêncios, as suas histórias de exemplo e proveito e, sobretudo, os estranhos causos de vida, de outras vidas de fome e susto, contados quando as circunstâncias se proporcionavam. E os tiques de cada um transformavam-nos em tipos paradigmáticos.

Ele era a minha avó Tonha que me estrelava dos ovos das suas duas pitas em água com uma pitadinha de açúcar para me convencer a dormir em casa dela, um pardieirozito ao Covelo, onde, à noite, eu ouvia o silêncio mais espesso e o mais lúgubre uivar de cães do universo. Ele era o tio Ramos, meu vizinho, atroando a pacatez do bairro da Portela com malhar vigorosamente o ferro na sua bigorna de ferreiro. Ele era o tio Pereira com o seu catarral cavernoso de fumador inveterado e as suas infindáveis histórias de caça. O tio Camilo que curtira a pele nos calores dos trópicos lá pelos Brasis, que matava o bicho com uma maçã e um cálice de aguardente e sabia de roquelhos como mais ninguém (o único em quem o meu Pai confiava). O tio Zé Miguel, pai de seis filhas, o mais manso dos homens, mas a quem a falta do cigarrito (caralto!) tirava do sério, que sabia um ror de histórias assombrosas e assava castanhas com perícia de mago. O tio Santo velho engoiado no seu capote… e tantos outros que seria fastidioso nomear.

Mas quem, hoje, particularmente recordo é o senhor Amadeu. Nem sei bem porquê, ele não era o tio Amadeu, como os demais, mas o senhor Amadeu. E lembro a sua figura pequenina, muito aprumada, de poucas falas e nessas poucas falas nada das palavrotas fortes com que na aldeia é de lei apimentar o discurso quotidiano. Sempre de camisa abotoada até ao pescoço e até aos pulsos (recordo particularmente uma de xadrez largo que ainda hoje me serve de padrão estético) e, por cima, nos dias mais frescos, a jaqueta de cotim, as botas breves impecavelmente ensebadas. Quando caminhava à frente do carro de bois, de aguilhada no ar, era como se cumprisse um ritual, empunhando um ceptro. Não me lembra que arranchasse nas tascas para a partida de sueca ou chincalhão, nem para o copo bebido nos adjuntos em qualquer dos sotos que ladeavam (e ladeiam) o Prado. Aquele bigodito rectangular ─ à moda da primeira Grande Guerra ─ é que andava sempre chamuscado pelo kentuky permanente. E aqui bate o primeiro ponto alto das minhas memórias. Meu pai dera-lhe entrada franca para lá do balcão sempre que quisesse abastecer-se de tabaco. E quando nos pedia um macito murmurava um qualquer número ─ 53, por exemplo ─ que correspondia ao quantitativo de maços em débito e que ninguém, a não ser ele, controlava. Quando muito bem entendia (normalmente por volta dos cem) procedia a pagamento.

Outra raridade para os hábitos da aldeia: a sua contabilidade caseira tinha um caderninho de anotações onde todas as compras eram registadas. Assim, qualquer elemento do agregado familiar podia vir às compras a crédito desde que se fizesse acompanhar do dito caderno. Por altura das colheitas procedia ao pagamento das despesas havidas ao longo do ano. E meu pai brindava tão certo como honesto freguês com uma garrafa de vinho do Porto.

Nestes conturbados tempos de vigarices e fraudes multimilionárias, de governantes que se governam e nos desgovernam, reconforta-nos a alma recordar estas personalidades que nos iluminaram a infância nesses tempos tão pobres de dinheiro e tão ricos de ser. Quantos daqueles homens e mulheres de rija têmpera não teriam sido génios se dispusessem das oportunidades hoje ao alcance de qualquer criança.